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A atratividade turística dos territórios combina o património histórico, edificado e imaterial, com as intervenções mais criativas e inovadoras. Quanto aos turistas, estes estão mais abertos a explorar novas experiências e a descobrir diferentes leituras dos lugares, que enriqueçam a sua viagem e a tornem inesquecível.

O Guia Portugal Contemporâneo destaca 4 áreas relacionadas com a contemporaneidade e a inovação: Arquitetura e Arte Contemporâneas, Design e Eventos.

Aqui poderá encontrar uma seleção criteriosa e fundamentada, com mais de 150 recursos e eventos, distribuídos por todo o país.

Na seleção da Arquitetura, a Ordem dos Arquitetos convidou Pedro Campos Costa que elegeu 40 locais demonstrativos da vitalidade e qualidade da atual arquitetura portuguesa – espaços públicos e privados, de diferentes usos mas passíveis de intensas vivências.

Na Arte Contemporânea, a Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Críticos de Arte incumbiu Rui Mário Gonçalves de selecionar alguns dos principais espaços (museus, galerias, centros de arte) que proporcionam quer a descoberta da arte portuguesa com a sua individualidade, cosmopolitismo, lirismo e subtileza. 

A seleção para a temática do Design é assegurada por Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, Museu do Design e da Moda, que coloca o seu enfoque nos interiores de espaços de diversa natureza que, agora e sempre, são símbolos de contemporaneidade e fruição única.

Quanto aos Eventos, selecionámos alguns que, de forma regular, trazem às regiões as tendências nacionais e internacionais no Cinema, Dança, Fotografia, Música, Teatro e nas várias Artes em Cruzamento. Um calendário de eventos que revela um excelente complemento da visita turística, fruto de um significativo investimento numa programação diversificada e apelativa.

Com este Guia dedicado à contemporaneidade, pretendemos proporcionar novas propostas de (re) descoberta de Portugal que facilitem a formatação de programas, conteúdos e serviços turísticos capazes de captar novos e mais públicos.

As pistas de visita que o Guia sugere, resultado das escolhas fundamentadas dos nossos parceiros, não esgotam o universo das expressões contemporâneas existentes, antes pretendem servir como um primeiro propósito de viagem.


Turismo de Portugal

Agradecimentos:
João Belo Rodeia, Rita Palma (Ordem dos Arquitetos); Pedro Campos Costa.
Delfim Sardo, Leonor Nazaré, Rui Mário Gonçalves (Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Críticos de Arte).
Bárbara Coutinho (MUDE, Museu do Design e da Moda); Frederico Duarte, Luís Royal e Rui Afonso Santos.

Nota: O enquadramento das imagens visa a sua adaptação aos suportes web disponíveis e é da exclusiva responsabilidade do Turismo de Portugal

Arquitetura

Boa Viagem.

por João Belo Rodeia
Presidente da Ordem dos Arquitetos

Na língua portuguesa, a palavra turismo tem como primeiro sinónimo o gosto pelas viagens1. De algum modo, associa-se o turismo ao prazer ou ao desejo em viajar, tal como outrora acontecia com o Grand Tour. Prazer ou desejo em viajar que, em movimento, eram inseparáveis da vontade de aventura, do encontro com a diferença e da contemplação da maravilha.

Depois, ao estabilizar roteiros, combinou-se desejo e prazer com obrigação. Adicionaram-se o conhecimento científico, a educação pela experiência, a fuga à civilização ou a civilização em fuga. As viagens passaram a estadas e o movimento de alguns passou ao movimento de muitos, reinventando-se em roteiros estabilizados, em climas convenientes, em rotinas sazonais, em confortos aprazíveis, em destinos cíclicos e previsíveis.

Depois, ainda, o mundo em movimento passou a ser um movimento sem mundo, transfronteiriço, rápido e global. A democratização do turismo massificou-o em possibilidades e ofertas imensas, na maioria normalizadas. Prazer e desejo passaram a obrigação, em rotinas idênticas e permanentes. A viagem foi substituída pelo recreio, a excursão pela incursão e o desejo e prazer pela excitação. Para o bem e para o mal, o turismo separou-se do gosto pelas viagens e tornou-se na mais importante indústria mundial.

A Arquitetura, outrora premissa de viagem, acondicionou a reinvenção massificada do turismo. Em todas as escalas, em todos os territórios e paisagens, e para todos os propósitos. Sistematizaram-se programas, otimizaram-se funcionamentos, racionalizaram-se procedimentos, especializaram-se intervenientes, implementaram-se construções em extensão nunca antes vistas. Com os melhores e piores resultados, com os melhores e piores arquitetos, e por vezes sem arquiteto algum.

Paradoxalmente (ou talvez não), nas últimas décadas, a normalização tendencial do turismo vem sendo substituída, em nome do jogo da competição e da (sua) sobrevivência, pela sua diferenciação no património, na cultura, na criatividade e na natureza. Recupera-se mesmo o nomadismo sazonal e substitui-se a rapidez do movimento por novos regimes de indolência, inseparáveis do desejo, do prazer e da estética contemplação. A Arquitetura readequa-se de novo, reinventando-se como suporte deste novo turismo ou recuperando, na sua própria fruição, o reencontro com a viagem.

O guia de arquitetura de Pedro Campos Costa2 fala deste reencontro em Portugal. A Arquitetura ressurge no gosto pelas viagens, respirando os Voyages en Italie do século XVIII ou os Baedekers do século XIX. Com destinos certos, mas sem itinerários ou horas marcadas. Boa viagem.

  1. Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Lisboa: Texto Editora, 1995: 1420
  2. Comissário da Ordem dos Arquitetos para o projeto – Guia Portugal Contemporâneo.


Viagens na minha Terra1

por Pedro Campos Costa
Arquiteto

Sugestões para a realização de um guia de arquitetura para a mais antiga indústria da cultura 2 ou 40 desculpas para viajar, não para conhecer a arquitetura portuguesa, mas pelo prazer3

Hoje o turismo é concebido e entendido como produto cultural em clara oposição à produção industrial. As maravilhas naturais, o património urbano, as cidades com as suas catedrais, palácios e museus, os parques, as cerimónias são o produto turístico transformado em cenário e experiência. Ao contrário da produção industrial que se baseia na transformação da natureza, o turismo como indústria cultural vive de uma fruição estética, de um contemplar em vez de explorar4. O produto turístico é o próprio território.

A viagem como critério

Estas escolhas foram imaginadas como uma viagem, porque é isso que define o turista; no dicionário Webster5 vem descrito - O turista é aquele que viaja de um lugar a outro, por prazer ou por cultura. O turismo é uma atividade de tempo livre ligada à mobilidade, muito diferente da “villeggiatura” que está associada à ideia de refúgio, repouso, de tratamento nas termas ou em lugares de saúde específicos6. Esta viagem foi concebida como um guia sem itinerário ou hora marcada, como uma narrativa dispersa, uma rede de pontos no território sem relações evidentes, para além da sua disposição geográfica mais ou menos abrangente e equidistante, totalmente insuficiente para criar uma imagem clara da identidade da arquitetura portuguesa. Não o pretende fazer, nem sei como se escreveria tal romance.

Estas sugestões de visita são uma narrativa possível do território e da sua geografia de ícones, imagens e referências arquitetónicas na paisagem construída de Portugal.

Para a construção desta ideia, guiei-me por três critérios que analiticamente me ajudaram à decisão. Experiência, geografia e programa.

Experiência: a arquitetura não existe nos seus meios de representação, desenho, maquetes, fotografia, vídeo… é tridimensional, física e sensorial, e é essa a experiência que emociona, e enriquece no seu contacto. A experiência é a possibilidade de participar, de tocar, de sentir, a oportunidade para o encontro e provavelmente a desculpa para ir. “To experience architecture in a concrete way means to touch, to see, hear, and smell it”7. Considera-se não só a experiência espacial interna do edifício, mas a sua relação com o exterior, o momento de chegada e a harmonização na relação com a paisagem8. Tentou-se propor a maior variedade de tipologias e experiências arquitetónicas, em equilíbrio com os dois critérios seguintes.

Geografia: tentei “espalhar” a escolha das obras pelo território. Esta rede de pontos não é proporcional ao número de habitantes ou à quantidade de obras elegíveis; como foi dito anteriormente, a escolha é orientada pela experiência e pelo lugar como oportunidade de viagem. Como consequência existe uma discriminação positiva, fazendo das áreas urbanas do Porto e Lisboa exemplos não proporcionais à quantidade e qualidade de produção arquitetónica elegível.

Programa: não se escolheram edifícios de índole turística, como hotéis, resorts, pousadas ou pensões, optou-se por obras de investimento público. Com exceções feitas em relação às adegas e lagares, que não sendo equipamentos públicos têm, no entanto, uma presença incontornável no imaginário turístico e um fortíssimo caráter arquitetónico e de experiência. Nas obras públicas, tentou-se que fosse diversificada a escolha, piscinas, bibliotecas, infraestruturas, centros desportivos, mercados, no entanto claramente em maior número, museus e centros de interpretação. As exceções são duas zonas urbanas (Expo 98 e Campus Universitário de Aveiro), justificando-se a escolha pela sua intensidade e quantidade de obras de referência, como pela experiência de percorrer estas duas zonas.

Estes três critérios não são separáveis e relacionam-se, porque parte da experiência está associada à geografia e ao programa; o convite é a viagem que possibilita esta tournée. A viagem é o critério. Boa Viagem.

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal. Viagem na Minha Terra, Almeida Garrett, 1846

mapa dos locais de arquitectura


  1. Título do livro de Almeida Garrett (1846)
  2. A mais antiga indústria da cultura; capítulo do livro A era do acesso, Rifkin 2001
  3. Frase do livro Rome, Naples et Florence, Stendhal (1865) – “Porque enfim eu viajo não para conhecer a Itália mas para meu prazer.”
  4. O turismo não explora diretamente os recursos naturais, mas indiretamente, através do consumo. A questão da exploração dos recursos naturais através do consumo é inerente ao atual modelo socioeconómico.
  5. Webster Third New International Dictionary, Vol.III, S à Z ed. 1971
  6. Urbain, Jean-Didier (2003) – L´idiota in viaggio, storia e difesa del Turista, tradução Chiara Barbarossa. Aporie 1ª ed. 1991
  7. Zumthor, Peter (2005) – Thinking Architecture. Birkhauser
  8. Távora, Fernando (1962) – Da organização do espaço. Edições FAUP, 2004

Arte

Arte Contemporânea Portuguesa

por Rui-Mário Gonçalves
Crítico de arte

Uma prática artística fortemente individualizada, onde é possível reconhecer uma informação cosmopolita, trespassada de lirismo e subtileza.

A Secção Portuguesa da Associação Internacional dos Críticos de Arte – AICA tem metodicamente, ano após ano, indicado ao grande público os artistas com melhor presença, indigitando-os para prémios importantes. Na extensa lista que a partir daí será possível organizar, são aqui citados apenas aqueles que, em 2012, permanecem ativos, podendo por isso ser visitáveis nos seus locais de trabalho. O conjunto é significativo. Nele pode observar-se uma grande variedade de manifestações vanguardistas, desde os renovados modos de captar o mundo visível até ao mais extremo abstracionismo, e desde o cuidadoso tratamento do objeto artístico até ao mais radical conceptualismo.

Na lista que se segue, acrescenta-se a cada nome a data de nascimento e uma ou duas palavras indicativas do tipo de arte realizada pelo artista. Obviamente, é um processo demasiado esquemático, pois muitos artistas passam por várias fases durante a sua carreira, ora se aproximando de uma tendência ora de outra, e chegando também a apresentar, numa mesma obra, a síntese ou a confrontação de técnicas e conceções diversas, num hibridismo assumidamente desafiador de qualquer etiqueta. O esquema pode porém ser útil como provisória primeira referência.

NADIR AFONSO (1920, abstracionismo geométrico); JÚLIO POMAR (1926, pintura figurativa); ARTUR ROSA (1926, objetos geométricos); CARLOS CALVET (1928, pop «metafísica»); LURDES CASTRO (1930, silhuetas objetualizadas); NIKIAS SKAPINAKIS (1931, pintura figurativa); JORGE PINHEIRO (1931, shaped canvas); ANTÓNIO COSTA PINHEIRO (1932, nova figuração); EURICO GONÇALVES (1932, signo gestual); HELENA ALMEIDA (1934, arte-vídeo); RICARDO CRUZ FILIPE (1934, fotopintura); PAULA FIGUEIROA REGO (1935, ilustração); JOSÉ RODRIGUES (1936, escultura); MANUEL BAPTISTA (1936, pintura-colagem abstrata); ALBERTO CARNEIRO (1937, land art); JOÃO CUTILEIRO (1937, escultura figurativa); EDUARDO NERY (1938, Op); JOSÉ DE GUIMARÃES (1939, picto-escultura); ANA VIEIRA (1940, instalação); JORGE MARTINS (1940, pintura neofigurativa); ANTÓNIO SENA (1941, signo informal); LUIS NORONHA DA COSTA (1942, pintura-ecrã); JOSÉ BARRIAS (1944, conceptualismo); JORGE MOLDER (1947, fotografia); PEDRO CALAPEZ (1953, pintura abstrata); RUI SANCHES (1954, escultura); PAULO NOZOLINO (1955, fotografia); PEDRO CABRITA REIS (1956, instalação); JOSÉ PEDRO CROFT (1957, escultura).

Estes artistas, geralmente mal aceites no início das suas carreiras devido à falta de um público informado, só podiam organizar a sua estratégia promocional em associações dirigidas por artistas, como a Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e a Cooperativa Árvore, no Porto, instituições que, porém, perdiam apoios sempre que os seus programas se concentravam na arte de vanguarda. Em suma: são necessárias décadas para modificar o gosto do grande público.

Mas a situação atual da relação arte-público melhorou consideravelmente.

Desde os anos oitenta do século vinte, o público da arte contemporânea beneficia em Portugal da ação desenvolvida pelos museus e galerias comerciais. O principal impulso deve-se à criação, em 1983 do Centro de Arte Moderna (CAM), da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Não tardou que outras influentes instituições culturais se viessem juntar ao CAM nesta ação divulgadora: a Fundação de Serralves (1989), com o seu Museu Nacional de Arte Moderna (1999), no Porto; o Centro Cultural de Belém (1993), em Lisboa, que, desde 2007, apresenta a Coleção Berardo, conjunto notável de obras modernas de grandes artistas internacionais, incluindo alguns portugueses; e o próprio Museu Nacional de Arte Contemporânea, criado em 1911, em Lisboa, inicialmente devotado à arte portuguesa romântica e naturalista, acompanhou escassamente as propostas modernas, até que, em 1994, atualizou o seu programa.

As galerias comerciais progridem também em quantidade e em qualidade. Dispersam-se pela capital e por outras localidades. Mas, no Porto, os comerciantes decidiram concentrar-se num quarteirão. Mais de vinte galerias de arte contemporânea juntam-se na Rua Miguel Bombarda, na Rua do Rosário e na Rua D. Manuel II, onde se encontra também o Museu Nacional Soares dos Reis. Principalmente dedicado às artes decorativas realizadas desde o século dezasseis, este museu não deixa de mostrar esculturas e pinturas tardo-naturalistas do século dezanove e algumas obras modernas do início do século vinte.

O confronto da arte mais recente com a do passado revela a intensificação atual do interesse dos portugueses pelas conceções e técnicas mais avançadas que têm surgido nos grandes centros culturais, como Paris, Munique, Londres ou Nova-Iorque, locais não apenas de produção mas também de convergência de informações sobre todo o mundo, incluindo cada vez mais a Ásia, a África e a América do Sul.

A vontade de alcançar um nível de comunicação universal anima as melhores pesquisas modernas. Pareceria então inútil procurar na expressividade vanguardista algumas caraterísticas portuguesas. Todavia, tal como numa língua, há sotaques regionais.

Assim, é frequente subsistirem nas obras dos atuais artistas portugueses algumas características que, entre outras, podem passar despercebidas. Cite-se, em primeiro lugar, o lirismo e a subtileza. Não aparecem tanto no início da carreira de um artista como na sua maturidade.

A evocação da Natureza ou de alguns recantos urbanísticos constitui um momento de auscultação de eles mesmos, deixando emergir as reminiscências de algum paraíso perdido. Há lugares de Portugal que foram representados de memória por pintores vivendo longe da Pátria. Nessa auscultação, outros apuram uma sensibilidade capaz de criar uma espécie de paisagismo arquetípico, que dispensa os pormenores indesejáveis. Alguns, em plena Abstração, sugerem todavia espaços puros, articulando livremente as perspetivas lineares, cromáticas e atmosféricas. Outros inventam instalações, construindo falsas ruinas, retomando talvez inconscientemente uma tradição romântica, e apresentam cenários de destroços; ou intervindo na Natureza, como na Land Art e noutras tendências conceptualistas. Outros ainda transfiguram fotografias ou confrontam-nas com palavras.

Muitos artistas modernos portugueses emigram ou fazem demoradíssimas viagens para se atualizarem nos grandes centros culturais, que são mais cosmopolitas do que franceses, alemães, britânicos ou americanos. Há nesses centros mais sinais do tempo do que do espaço. Os artistas modernos, com os olhos do seu tempo, passam a encontrar valores nas tradições portuguesas que não são melhor entendidas por aqueles que não viajaram. Passam também a encontrar os valores sensoriais das artes não-europeias. O vigor das formas plásticas de outras civilizações despertam-lhes os sentidos. Daqui resulta uma arte híbrida que já alcançara altos momentos artísticos no passado de Portugal: o estilo Manuelino e Barroco. Hibridismo e ornamentalismo são, pois, outras duas caraterísticas que subsistem atualmente, fora de qualquer previsão das teorias críticas mais correntes.

O artista português não se perde na sabedoria alheia. Recria-se e esclarece-se intuitivamente sobre o que ele próprio é, ao notar o que lhe falta. Dois poetas esforçaram-se por explicar este facto paradoxal, defendendo-o e fixando-o com pequenos aforismos originais. O visionário Teixeira de Pascoaes (1877-1935) escreveu: «A alma é feita do que nos falta.» Por sua vez, o irónico Fernando Pessoa (1888-1935) avisou: «O português que só é português não é português».


Lisboa, 2012

Design

Design de Interiores

por Bárbara Coutinho
Diretora do MUDE – Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo

Conhecer Portugal através dos ambientes dos seus cafés e pastelarias, livrarias, hotéis e lojas comerciais, clubes noturnos e espaços culturais é uma descoberta que nos faz imergir nos diferentes tempos em que foram projetados e construídos. Muitos destes espaços sofreram profundas alterações ao longo dos tempos. Alguns desapareceram, outros tornaram-se cópias de outros modelos, muitos foram totalmente descaracterizados tanto na sua estética como no seu uso, muitas vezes atrás de uma ilusória modernização. Na génese desta seleção de 44 interiores públicos encontra-se a vontade de desvendar as mais diferentes tipologias, de luvarias a casas da sorte e tabacarias, de teatros a gares marítimas ou de restaurantes a pousadas... Por outro lado, procurou-se uma representatividade nacional, apontando alguns locais do norte e centro do país. Contudo, é assumido o predomínio da capital Lisboa, resultado do desenvolvimento arquitetónico, sociocultural e urbano que viveu durante os séculos XIX–XX. A seleção resultou ainda da procura por espaços que conseguiram chegar até nós mantendo a sua identidade intacta, afirmando-se ainda como lugares de vida e contemporaneidade. Muitos outros ficam de fora. Uns, por desconhecimento; outros, em resultado das nossas próprias vivências. Mas se esta seleção conseguir suscitar a curiosidade de cada leitor em conhecer mais, cumprimos o objetivo proposto. Visitar alguns destes ambientes permitirá compreender as linguagens ou os estilos utilizados ao longo dos tempos e alguns dos melhores arquitetos e artistas em Portugal. Acresce que cada opção permite compreender a noção de “interior” enquanto projeto multidisciplinar, para o qual concorrem as mais diversas áreas de expressão, numa articulação funcional e estética. Falamos, por exemplo, da necessária harmonia entre arquitetura e design, azulejaria e cantaria ornamental, marcenaria e pintura decorativa... A qualidade do todo depende necessariamente da unidade entre mobiliário e luminária, objetos decorativos, vidros, cerâmicas e têxteis, mas também da correta opção pelos materiais, cor e luz.

Assim, sugerimos lugares que nos fazem sentir diferentes ambiências. Não nos fixámos apenas na contemporaneidade (no estrito senso cronológico). Olhando para o nosso presente, salientámos os espaços que, apesar de ser de outrora, se mantêm atuais e bons exemplos do nosso saber e técnica. Entre muitos outros, destacam-se alguns exemplos:

A atmosfera neomanuelina (com o Palace Hotel do Bussaco, 1888-1907), projetada pelo cenógrafo Luigi Manini, numa época de ecletismos arquitetónicos e revivalismos historicistas. Tendo como inspiração a Torre de Belém e o claustro do Mosteiro de Santa Maria de Belém, esta obra contou com a colaboração de uma extensa galeria de arquitetos, pintores e escultores;

A expressão Arte Nova e o seu culto pela linha e pelas formas orgânicas que cobrem as superfícies, a valorização dos trabalhos artesanais ao nível da decoração e a adoção dos novos materiais (ferro, vidro) bem presentes na Leitaria A Camponeza, mas também na Livraria Lello e Irmão, na Padaria de São Roque ou no Café Majestic;

Mais próximo de nós, alguns dos lugares escolhidos mostram também a revolução de hábitos urbanos que o país viveu durante os anos 1960/70. Exemplo são os novos cafés e snack-bares, como por exemplo o Galeto, onde é visível um forte sentido plástico, nomeadamente no seu balcão, e um desenho integral dos equipamentos. Também dos anos 60, referência incontornável para a Reitoria da Universidade de Lisboa, a Biblioteca Nacional de Portugal e vários espaços da Fundação Calouste Gulbenkian, desenhados por Daciano da Costa, uma das figuras de proa do design em Portugal. Já dos anos 80, são motivos de referência a Loja da pioneira Ana Salazar, o restaurante Casanostra e o emblemático Pap’Açorda que marcou toda a vida do Bairro Alto, tal como o Centro Comercial Amoreiras com a sua estética pós-moderna. Da década seguinte, destaca-se o Lux com uma renovação regular dos seus ambientes e uma seleção de peças vintage e o restaurante Bica do Sapato, dois espaços que impulsionam uma vida noturna e cosmopolita em Santa Apolónia;

Chegados à atualidade, é marcante a tendência pela recuperação e reabilitação de lugares e objetos, onde tradição e modernidade, velho e novo, andam de braço dado. Falamos, por exemplo, do restaurante A Cantina e da livraria Ler Devagar, ambos na Lx Factory ou do The Lisbonaire Apartments, símbolo de um novo conceito de alojamento. Mas, talvez a presença mais forte seja a pluralidade de tendências, pluralidade essa para a qual concorrem estes e muitos outros lugares especiais a descobrir.

Seleção realizada por um júri constituído por Frederico Duarte, critico de design; Luís Royal, designer; Rui Afonso Santos, historiador de arte e Bárbara Coutinho, Diretora do MUDE – Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo

Eventos

Vivências Contemporâneas

por Turismo de Portugal

Fruto do reconhecimento da importância da programação turístico-cultural como fator distintivo dos destinos e de um investimento em novos ou renovados equipamentos culturais, Portugal dispõe hoje de uma programação consistente em diversas áreas contemporâneas, tais como as Artes Plásticas, Cinema, Dança, Fotografia, Música, Teatro ou em áreas multidisplinares.

Os eventos são fundamentais para o enriquecimento da experiência de quem nos visita e um fator chave na valorização da oferta turística com claras repercussões na dinamização económica das regiões onde se realizam.

A seleção de eventos não exaustiva, que efetuámos em colaboração com as sete Agências Regionais de Promoção Turística, e que consta deste Guia, contempla mais de 30 acontecimentos artísticos contemporâneos, organizados em eventos anuais, bienais e trienais, distribuídos pelas várias regiões turísticas do país.

Nas artes do palco, estão presentes alguns dos principais acontecimentos internacionais promovidos por Centros Culturais nas principais cidades do país, assim como mostras e festivais que ocorrem em vários Teatros Nacionais e Municipais, que acolhem propostas contemporâneas de grande interesse e qualidade.

No cinema, várias mostras e festivais que têm vindo a conquistar reconhecimento internacional e a posicionar Portugal na rota dos grandes eventos da sétima arte, constam também deste Guia.

Os festivais de música, também assumem um protagonismo assinalável, mais concentrados no verão mas não exclusivamente. Acontecem um pouco por todo o país e respondem a todos os gostos e tendências musicais – indie, pop rock, world music, jazz, entre outros.

Referenciámos também a animação urbana, muito importante no espaço público das nossas cidades, com uma oferta diversa, desde a música, ao cinema, à arte pública.

Esta Agenda de Eventos não esgota a oferta disponível em todo o país, ao longo de todo o ano. Para conhecer mais eventos e programas de interesse, deverão ser consultados os sites turísticos regionais e o visitportugal.com.


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