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O Vinho desde tempos imemoriais que está associado à gastronomia portuguesa envolvendo engenho agrícola, marcando os usos e costumes de um povo, revelando-se na arte e na arquitetura e, vincando, de forma indelével mas sustentável a paisagem.

O reconhecimento dos vinhos portugueses tem vindo a ganhar eco fora de portas mercê da dedicação e sensibilidade de quem os produz. As adegas reformularam-se à luz de novas regras, outras ousaram nas formas arquitetónicas, os espaços revelam a história dos locais. A paisagem de vinha ora tira o folgo a quem a contempla, ora acalma os espíritos mais inquietos. As pessoas, essas, envolvem pela forma como recebem e partilham esta riqueza.

O turista procura estes valores, aprecia o que é genuíno e é ávido de experiências marcantes em locais emblemáticos. O vinho, a vinha e a cultura vínica podem afirmar-se sustentando a procura turística, reforçando a atratividade do território e valorizando outras propostas de visitação turística.

Este património é vasto e distribuído de norte a sul de Portugal. As unidades de enoturismo identificadas neste Guia Técnico de Enoturismo, são parte desse património, destacando-se pelas várias atividades associadas ao vinho, os espaços e serviços suscetíveis de serem utilizados para a realização de um vasto leque de eventos e iniciativas turísticas e o alojamento próprio.

Pretende-se com este Guia Técnico de Enoturismo proporcionar uma ferramenta de trabalho destinada aos agentes turísticos, visando potenciar o segmento do Enoturismo e contribuir para a divulgação do património associado ao Vinho e à Vinha.

Turismo de Portugal

A Vitivinicultura em Portugal
por Vasco d’Avillez

A evolução de todo o Sector Vitivinícola em Portugal tem sido interessante de observar nos últimos quinze a vinte anos e muito mais vai certamente avançar pois este tipo de progresso, uma vez posto em marcha, é imparável.

Os mais filosóficos dirão e eu concordo, que o vinho é parte integrante da nossa Cultura. De facto, ainda não havia portugueses neste torrão “à beira-mar plantado”, e já aqui se fazia e bebia vinho, sobrando ainda algum que os mercadores Cartagineses e Fenícios, entre outros, vinham buscar, para vender na Europa de então.

Os Romanos, na sua busca de glória e fortuna, invadiram e instalaram-se nestas paragens e, como uma parte do pagamento às Legiões era feita em vinho, aproveitaram para plantar inúmeras vinhas mais, para além das que já cá havia e daquelas que os Cartagineses e os Fenícios haviam por sua vez trazido. O resultado foi o de que juntaram castas e mais castas diferentes, e que produziam vinhos de que os soldados gostavam ou a que estavam habituados em outras paragens. As lagaretas romanas existentes, sobretudo no Norte de Portugal, na região do Dão ou da Beira Interior, são disso exemplo.

O Cristianismo, implantado e possuidor de uma mensagem de vida eterna, apresenta como imagem didáctica a videira e, proposto e ensinado pelo próprio Mestre, o vinho é proclamado, a par do pão, como o símbolo da mais sagrada devoção. O “fruto da videira e do trabalho do homem” põe-nos, assim, perante uma mensagem muito particular, pois que desde há mais de dois mil anos reúne em si as características de novidade e de necessidade que o têm tornado sempre presente na nossa vida. Entrou para a nossa Cultura e para a Cultura Universal, sendo por isso tão importante.

A Vitivinicultura, cujo objectivo final é, sem dúvida, o amanho da terra para o cultivo da vinha, conducente à criação de uvas sãs e capazes de produzir um vinho cada vez melhor, está, entre nós, a evoluir de forma rápida. Em parte forçada pelo próprio mercado, em parte forçada pela estrutura etnográfica de Portugal, esta evolução radica, para só falar em anos mais recentes, na terrível devastação que causou a Filoxera que, talvez por isso mesmo, se chama em latim Phylloxera devastatrix. Atingiu Portugal a partir do segundo quartel do Sec. XIX e, em pouco mais de vinte anos, destruiu tudo à sua passagem. Salvaram-se, como é sabido, as vinhas de areia de que Colares é bom exemplo e algumas vinhas de barros espessos, nomeadamente na Bairrada. A comoção social então causada foi de tal forma que muita gente da região de Trás-os-Montes morreu de fome, e a grande maioria saiu para a emigração, engrossando o número de portugueses no Brasil, ou foi para outros pontos da América do Sul, criando núcleos que ainda hoje são importantes, como seja o da Venezuela.

Embora vários cientistas se tenham dedicado à recuperação desta desgraça, a cura acabou por vir de fora e diz-se que na região do Ribatejo, fornecedora até então de grandes quantidades de vinho para a destilação,foi um francês, de seu nome Martell, quem trouxe para a região a ideia de usar raízes de cepas americanas, como se vinha a fazer já noutros pontos da Europa. O remédio foi tão eficiente e a quantidade de vinho aumentou tanto, que em breve as pessoas se referiam ao fenómeno como sendo produções de vinho à la Martell, de onde teria surgido a expressão “vinho a martelo”! Este foi um dos males que foi preciso enfrentar desde 1980 para cá e que se centrava não na produção de vinhos falsificados, mas na produção de vinhos para vender apenas com o pensamento no álcool potencial que idealmente seria de 12º. O preço do vinho era feito apenas com base no seu grau de álcool. Não se premiou, desde cedo, a qualidade das uvas ou, perante o sucesso deste ou daquele vinho mais apetecido pelo público, não se ensinaram os agricultores a repetir as razões daquele sucesso.

A vinha e o vinho mudaram a face do nosso país de várias formas, quase sempre para melhor, bastando para isso que nos lembremos da beleza que é a vista de todas as estradas de Portugal, quase sempre dando para esta ou aquela vinha. Pensar o que foi a saga da modificação da paisagem do Douro, que há pouco celebrou os 250 anos das demarcações Pombalinas. São mais de 43 000 hectares de vinha instalada em terraços ou na vertical, mas que estão reestruturados por cima de outros feitos à mão e sem qualquer auxílio mecânico. O número de homens/hora necessário para levar a cabo esta obra foi de certeza aterrador. Mas o Dão, as Beiras, o centro de Portugal e, mais modernamente, o Alentejo e um pouco o Algarve, no Sul, com as suas vinhas já vastas em propriedades de tamanho acertado para a conjuntura económica actual, são testemunho desta mudança.

A geração que escreve este Guia Técnico de Enoturismo é a mesma que tem incentivado e aprofundado a mudança, tão necessária e tão radical, que se está ainda a operar entre nós. Finalmente se concluiu também entre nós, aquilo que os Australianos, os Sul-Africanos e, à frente de todos, os Californianos descobriram há muito: tudo começa na vinha! Senhores desta verdade, os enólogos pressionaram todos os sectores da vitivinicultura para que se mudassem muitas das “tradições” da nossa forma de trabalhar enquanto povo produtor. E essa mudança trouxe a melhoria da qualidade, e esta trouxe o melhor produto - .o vinho que produzimos é hoje em dia apreciado e descrito pelos técnicos internacionais e pelos líderes de opinião como estando num estado de grande interesse. O sucesso tem de chegar e depressa, logo que consigamos em conjunto transmitir ao público esta novidade que são os Vinhos de Portugal. Feitos com castas únicas que têm até, por vezes, nomes difíceis de dizer noutras línguas, estes nossos “embaixadores” vão por certo encontrar neste Guia Técnico, mais um ponto de apoio e mais uma razão de orgulho.

Parabéns às várias unidades de Enoturismo que connosco colaboraram, pelo testemunho que deixam de como os Portugueses sabem receber bem.